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QUARENTINE DAYDREAMS

Não é de hoje que a vontade de escrever me consome, apesar da escrita não ser uma das minhas melhores ferramentas de comunicação, ela se torna cada vez mais presente e necessária para um artista que busca diariamente manter a sanidade. 

 

É, eu sei, no instagram parece que está tudo sempre bem, como num album de família onde só se colecionam momentos felizes, mas a vida real não é para amadores, principalmente para artistas que pensam demais. Ano passado fiz quase 30 sessões de terapia - que me fizeram um bem incalculável - e o resumido aprendizado dessa experiência foi que escrever me faz bem, me acalma e me liberta de um overthinking que só faz o ciclo vicioso da ansiedade se estender. Isso não quer dizer que eu escreva bem, na verdade não escrevo, por vezes erro virgulas, conexões, métricas, e só não errei nenhuma palavra nesse texto que redijo agora porque o computador me corrigiu.

 

O fato é que não me apego aos erros, foi errando que aprendi a ser quem sou, e será errando que me acostumarei a escrever. Nos próximos dias de quarentena por conta do COVID-19 postarei um pequeno texto por dia com algum devaneio ou reflexão provinda de mim, dos meus estudos e da minha história.

 

Que dure 30 ou 90 dias, espero que com esse conteúdo que não tem forma, organicidade nem simetria, eu consiga te fazer mergulhar com um pouco mais de profundidade em minha cabeça e reflexões atuais que, apesar da bagunçada ou desprovida de enredo, sintetizam a conexão e veracidade com o que estou pensando agora. Boa leitura.

Dia 1 - 17/03/2020 | ARTE

Arte é a interpretação da vida. Em sua essência é a tradução de toda a experiência humana. Ela é a interpretação pessoal do artista e sua experiência de vida. É uma expressão das nossas emoções, é a interpretação das nossas experiências.

 

Embora com alguma freqüência a arte não seja nada mais do que um ato de catarse, trazendo alívio aos anseios mais fundos da minha alma, a arte em sua forma mais pura é a extensão dessa alma. Ela transforma o mundo, é declaração de significado ou falta dele, criada tanto para expressão própria quanto para a extensão do eu. Se torna profunda quando expõe, nos explica ou nos inspira.

 

Quando a arte é tanto universal quanto intima, ela transcende. Ela conta nossa história e revela nosso eu não revelado. Tanto Autêntica como idealista, toca tanto nossa dor quanto quanto nossa esperança, e talvez só encontra significado quando ecoa na alma.

Dia 2 - 18/03/2020 | RAÍZES

Inspiração é vivência, aprendizado, conhecimento, foco e curiosidade. Ela me eleva e conduz em direção a uma jornada, resultado ou emoção. Mas talvez, depois de longos anos, o fato de eu finalmente ter encontrado minha paz interior junto ao meu trabalho com confiança no genuíno e na verdade, se deu quando entendi que quanto mais me inspiro naquilo que vivo ou vivi, mas consigo mergulhar no mar da minha autenticidade. No puro, na minha verdade. 

Dia 3 - 19/03/2020 | O MELHOR ARTISTA DO MUNDO

O sonho de ser o maior artista do mundo não existe. Isso pressupõe a existência de um topo e sugere que alcançar esse topo e nele ficar é o único motivo para criar. Traçando paralelos entre sucesso e fracasso, vitória e derrota, comparação e competição, unidades vendidas e influência exercida. Essa lógica pressupõe que precisamos ser vitoriosos contra nossos pares e as versões anteriores de nós mesmos. Esses definitivamente não são meus motivos pra criar.

Essa competição me atrai para um jogo que não quero jogar, não venderei minha alma para o sofrimento criativo com a finalidade de ser o melhor, não sou o artista atormentado cujo estereótipo é de alcoólatra, sabotador de relacionamentos e arrogante. Prefiro receber minhas inspirações com respeito, nutrindo relacionamentos saudáveis para não me deixar distrair com catástrofes emocionais que eu mesmo inventei, e sempre apoiando os outros em seu propósitos criativos (há espaço para todos). Prefiro lutar contra os meus demônios com gratidão - oração - evolução espiritual e humildade.

Uma coisa é certa: Não morrerei jovem, não culparei minha inspiração pela minha morte, e quando ela chegar, agradecerei minha criatividade por ter me abençoado com uma existência interessante e apaixonada, e por ter me acompanhado gentilmente na construção do meu legado.

Dia 4 - 20/03/2020 | A FONTE

Chegamos a um momento no mundo atual onde literalmente todo mundo tem uma fonte favorita, o fato de você poder escolher fontes no telefone, Instagram Stories ou computador conscientizou as pessoas em geral a respeito do que é a tipografia e dos tantos rostos que ela pode ter. Mas como levar essas mesmas pessoas a um aprofundamento maior sobre essa arte tipográfica? A partir desse momento, penso que uma das minhas missões como artista é produzir uma matéria-prima aberta a interpretação que leva a esse aprofundamento da leitura e reflexão acerca das palavras e como as escrevemos - ou não - para que essa conscientização em torno da fonte ou tipografia transcenda o universo básico no qual o espectador está inserido.

Dia 5 - 21/03/2020 | DINHEIRO

O mundo precisa redimensionar o dinheiro. Hoje penso nele como uma forma de energia que usamos para chegar em algum objetivo. Humanos doentes o usarão para coisas sem sentido, bens, status, poder e consumo como forma de aumentar seus baixos níveis de serotonina na marra. Nós não, não deixaremos de ganhá-lo, mas o articularemos junto a outras grandezas energéticas para buscar a riqueza, que não tem nada a ver com o dinheiro, mas traz retorno em outras moedas: sentido, grandeza, excelência, propósito e experiências.

Outras variáveis energéticas tão ou mais importantes que o dinheiro são: A capacidade de engajar gente talentosa, criar uma cultura ou visão de mundo daquilo que se investe tempo, construir ou fazer parte de uma comunidade que pensa como eu e encontrar num produto (trabalho) uma maneira de exercitar nosso propósito. Em um lugar onde criador e criatura se confundem, na alma desse propósito que vai muito mais além de acumular dígitos em instituições financeiras. 

Dia 6 - 22/03/2020 | UM PROCRASTINADOR

No Egito antigo haviam 2 verbos diferentes para a ideia de "procrastinação", um denotava preguiça, outro significava esperar pelo momento certo. Estudos calculam que DaVinci pintou a Monalisa ao longo de alguns anos. Na época os críticos acreditavam que DaVinci estava perdendo tempo com experiências ópticas e outras distrações que o impediam de terminar seus quadros. Porém, foram essas "distrações"  que acabaram se revelando vitais para sua evolução e originalidade dentro de seu trabalho.

Embora me irrite frequentemente com a procrastinação, compreendo que a originalidade não pode ser apresada. Quando DaVinci dizia: "Gênios realizam mais quando trabalham menos, porque estão pensando em invenções e formando na mente a idéia perfeita", ou quando Mark Twain disse: "Nunca deixe para amanhã o que você pode fazer depois de amanhã", me faz pensar um pouco mais sobre como esse caras lidavam com a tal procrastinação.

Em meu caso, quando estou procrastinando, a verdade é que tenho algo em banho-maria no pensamento e preciso de tempo para pensar e masterizar tal ideia com um pouco mais de clareza antes de começar a executá-la. Acredito que no campo da arte e da criação as idéias precisam de um pouco mais de tempo para amadurecer.

Além da procrastinação me oferecer o tempo necessário para pensar, masterizando as idéias inovadoras, ela me mantém aberto as improvisações. Quando planejo tudo com antecedência, é comum ficar preso ao script original que criei, fechando as portas para as possibilidades criativas que podem surgir ao longo desse caminho.

Procrastine com moderação: Não nego, sou um grande procrastinador, porém não abro mão do planejamento. Talvez meu segredo seja procrastinar estratégicamente , avançando de forma gradual, testando, refinando e masterizando até o momento certo - se é que ele existe - para a execução de uma tarefa ou peça.

Dia 7 - 23/03/2020 | VELOCIDADE X DISTÂNCIA

Assim como a arte, o esporte tem representação fundamental na minha salvação nessa vida. Além de me salvar de uma vida medíocre e depressiva, ele me ensinou e ainda ensina. Sou corredor de rua desde meus 14 anos de idade, comecei correndo provas de 5km, 10km, 15k até as mais recentes provas de 21km (ainda completarei a tal maratona). Essa minha experiência com a corrida me trouxe uma das principais lições que carrego comigo até hoje: A velocidade me faz ganhar uma prova de curta distância, mas só a constância me levará a conquistar aquilo que poucos no mundo conquistaram: terminar uma maratona.

Quando aplico essa lição a uma vida criativa ela se formata desta tal forma: A velocidade é uma ótima estratégia para jovens gênios, mas para se tornar um velho mestre é preciso ter a paciência de um maratonista na condução de suas experiências. Os dois caminhos levam a uma vida criativa, no entanto se não temos a sorte de ser atingido bem na mira por um insight, a experimentação lenta e consistente certamente abrirá caminho para um período mais longo e gratificante de originalidade.

Penso que, no fim das contas, seja combinando novas coisas em velhas estruturas ou novas estruturas em velhas coisas, seja usando a velocidade para alguns projetos ou a arte milenar da constância e cadência para outros, coisas boas acontecem com quem sabe esperar.

Dia 8 - 24/03/2020 | PESQUISA ARTÍSTICA

Quando vendi minha primeira obra em 2013, um papel couchê 300g decorado com uma tipografia feita em canetinhas de desenho arquitetônico que recitavam a letra de uma musica do GreenDay, eu não fazia idéia do que era uma pesquisa artística. No fundo, aquele era apenas um jovem de 21 anos que descobriu poder pagar algumas contas com aquilo que ele mais gostava fazer: pintar.

Algum tempo depois, quando a prematura vontade de expor alguns desses trabalhos em galerias e espaços que abraçavam a arte se fizeram presente, fui bombardeado por galeristas, curadores e outros artistas com a mesma pergunta: "Qual sua pesquisa artística?". Eu não tinha uma, só gostava de pintar e pronto. Estava tão errado assim?

Hoje, com mais de 7 anos de trabalho profissional nas artes plásticas, não só tenho clareza sobre minha pesquisa artística como entendi que tal pesquisa não se cria de uma hora para outra, ela é um aprofundamento que se constrói durante uma jornada. E a minha, no caso, esteve e estará em constante evolução e refinamento enquanto houver vida artística. De todo modo, aqui vai um resumo dessa busca incessante até o presente momento:

O ano era 2014 e naquela época criava pura e simplesmente porque gostava e nenhum galerista ou artista mais velho ia tirar isso de mim. Em 2015 percebi que minha pesquisa estava direcionada a representar o mundo através de sensações e sentimentos internos provindos de um eu observador. Quando 2016 chegou, entendi que essa busca não era sobre uma representação fiel da realidade, e sim sobre o que se sente, a visão subjetiva e emocional, a essência, a pureza, beirando ao espiritual. 2017 foi um ano onde entendi que esse era um caminho natural a abstração, que a desconstrução total das palavras ali executadas se dava como única opção para a reflexão da forma indireta, aprofundando a busca pelo entendimento em níveis que já não se deixassem levar por arquétipos, pré-conceitos e objetividades racionais criadas pelas palavras escritas.

 

Em 2018, quando os símbolos tipográficos provindos dessa desconstrução já caracterizam essa livre reflexão, entendi que era estreitamente necessário convidar o espectador a utilizar sua potência associativa para montar a sua própria interpretação sobre meus trabalhos, com o intuito de abrir o mundo de possibilidades reflexivas a eles. Para cada um, um sentido único determinado pela bagagem subjetiva que acompanha o indivíduo. Já em 2019, em um momento onde minha pesquisa artística era claramente caracterizada por essa completa desconstrução tipográfica onde tais texturas já faziam com que o espectador identificasse quem produzira a obra sem sequer precisar procurar por uma assinatura num canto, percebi que essa identidade já não fazia mais jus a minha pesquisa sozinha. Foi então que a tal pesquisa se direcionou a integrar fortes variações de tema, intensidade e tonalidade, sem necessidade de seguir uma estrutura pré definida. A missão era fazer com que suas formas fossem mais livres que as próprias variações, uma vez que já não havia mais a necessidade de respeitar os temas.

2020 chega e quanto mais caminho na busca pela masterização de minha pesquisa, mais entendo que só encontrarei as verdades absolutas dessa estrada olhando para dentro, para tudo aquilo que vivi e vivo. Não atoa, hoje essa busca se dá através da junção de 7 anos de pesquisa arquitetônica provinda de uma formação em arquitetura e urbanismo até então encubada, junto a toda essa evolução através da tipografia apresentada a cima. O resultado se deu por diversos caminhos: materialidade, tridimensionalidade, usabilidade, estética e a cidade. E se usássemos conceitos arquitetônicos para criar obras de arte? Há muita pesquisa pela frente.

Dia 9 - 25/03/2020 | ADULTO

A criatividade me criou e me fez adulto, percebi nessa trajetória que o que produzimos nem sempre é sagrado só porque acreditamos que seja, entendi que a tradução do desconhecido já não importa mais, aprendi que não preciso saber o que tudo isso significa, de onde as ideias são concebidas originalmente, qual o caminho exato necessário ser trilhado para encontrá-las, muito menos como a minha criatividade realmente funciona ou porque ela não está sempre a minha disposição.

No fim, aprendi o que de fato é mais sagrado, e o que realmente importa é o tempo que passamos trabalhando em um projeto, as horas de estudo para se aprofundar numa pesquisa artística verdadeira e coerente, a disciplina para não desistir no meio de tantos descaminhos promovidos por uma vida criativa, e por fim, mas não menos importante, a maneira como esse tempo de dedicação amplia nossa imaginação e como essa imaginação ampliada e executada transforma um espaço, um lugar, um objeto, o mundo.

Dia 10 - 26/03/2020 | CRIANÇA

Para uma criança de 5 anos, um mero traço no papel pode se converter no telhado de uma casa. Ela vê as coisas a sua volta de forma singular, pois sua percepção mais apurada e sensível lhe permite significar o mundo por meio de configurações únicas, usando suas capacidades naturais e cognitivas para idear, criar e simbolizar.

É engraçado pensar que eu poderia estar falando acima das características primorosas de um grande artista, quando na verdade, estou falando de uma criança. Sempre quando me aprofundo na pesquisa sobre arte e criação para buscar o maior grau de refinamento sobre o assunto, acabo esbarrando nelas: as crianças.

Antes da criança aprender a andar, ela dança. Antes de aprender a falar, ela canta. Antes de aprender a escrever, ela desenha. Esses são alguns dos milhares de exemplos que provam a naturalidade criativa delas, então porque, conforme crescem, a maioria vai se desacostumando aos movimentos criativos? Porque cresci mais propenso a saber lidar com a criatividade e outros seres humanos nem tanto? É culpa dos pais? Das engrenagens da sociedade? Essas perguntas me levam a uma única afirmação: há muito a ser estudado sobre esse tema.

Dia 11 - 27/03/2020 | A FRUSTRAÇÃO É O PROCESSO

Aprender a separar as decepções e frustrações é parte de um trabalho criativo. Depois de longos anos de batalha contra elas, entendi que a frustração não é uma interrupção do processo criativo, ela é o próprio processo. A parte divertida nem sempre se faz presente e o segredo é saber lidar com essas fases complicadas que precedem os momentos sublimes onde sequer percebo que estou trabalhando. A missão é manter a sanidade entre essas transições.

De qualquer modo, os ingredientes essenciais para a criatividade continuam sendo os mesmos: Coragem, encantamento, permissão, estudo, persistência e confiança. Elementos acessível a todos, o que não quer dizer que uma vida criativa seja sempre fácil, apenas que sempre é possível. Hoje digo que não tenho mais bloqueios criativos, porque quando eles estão prestes a chegar, entendo que chegou o momento desse processo onde preciso voltar duas casa e evoluir mais nos itens citados acima para voltar ao trabalho.

 

No fim, é a tal frustração que me faz um criador melhor a cada dia e, se meu desejo de trabalhar e colaborar com a minha criatividade de maneira íntima e livre estão em dia, esse é meu maior incentivo pessoal para lutar contra a dor e levar a vida criativa mais saudável e estável que puder.

Dia 12 - 28/03/2020 | CRIANDO LUGARES

Os lugares que estão atualmente em minha vida existem por conta de uma articulação de energias que criei ao longo do tempo, mas seria prepotente demais da minha parte pensar que eles existem única e exclusivamente pelo meu desejo. Um lugar - que pode ser traduzido também como frequência, estado, ideia ou momento - representa a articulação da vontade e da força de várias pessoas que não só vejam como eu vejo o mundo que minha criação propõe, mas que também influenciam de forma quase subconsciente na formatação de qualquer tipo de ideia criativa em execução.

Então afinal, o que estamos criando? o que juntos estamos deixando no rastro de nossas vidas? As palavras que dizemos e as escolhas que fazemos são o material com o qual não apenas criamos as nossas vidas, mas criamos os lugares que nos cercam. Nós estamos realmente unindo nossas forças para criar lugares nos quais nos orgulharemos nos instantes que precederão nossa morte? Uma coisa é certa: posso ter uma ideia sozinho em meu ateliê, mas tenho certeza que nunca criei nada sozinho.

Dia 13 - 29/03/2020 | ARQUITETURA E A CIDADE

Esses dias me peguei pensando que atualmente todas as inspirações necessárias a mim, vem do que eu vivo e daquilo que já vivi. Das raízes. A arquitetura é prova disso na minha vida e apesar do meu conhecimento em arquitetura sempre ter permeado minha trajetória criativa, hoje essa pesquisa se materializa com muito mais clareza, através de novas materialidades, tridimensionalidade, texturas e composições.

 

Eu sempre brinquei que quem acha o centro de SP feio é porque anda olhando para o chão. Quando se olha pra cima lá está, arte. A arquitetura, a volumetria, a estética, a simetria, as cores, o céu. Essa é a dinâmica intuitiva desse processo de trazer a arquitetura para as artes plásticas e galerias, enxergar o que sempre esteve ali, para depois representar como uma estrutura sensibilizada do meu eu.

Dia 14 - 30/03/2020 | CRIATIVIDADE

Quanto mais aprendo, mais descubro que pouco sei. Mas se tem uma coisa que eu sei nessa vida é: Cresci numa família de pessoas criativas. Não, meu pai não foi musico nem minha tia uma grande escritora com alguns tantos livros publicados. Em minha família vivem professores, engenheiros e representantes de venda. Nenhum artista nela, mesmo assim ainda tenho certeza de ter crescido em uma família de pessoas criativas. 

 

Certa vez conheci um ferramenteiro com algumas décadas de vida, vi ele combinar conhecimento e imaginação aplicada para desenvolver maquinas agrícolas do zero. Conhecendo melhor esse homem, descobri que além de entender um pouco de tudo, ele resolvia qualquer problema. Quebrou a trava da mala de viagem? Ele cria uma nova em aço, que quase sempre fica melhor que a original de plástico. Para tudo que ele fazia, havia uma solução criativa vinda da mistura de seu repertório e bagagem na área que atuava. Esse é Dionisio, meu avô.

 

Como artista, uso a criatividade na expressão do meu sentimento através de obras de arte, intervenções, cenografias e murais. Mas as pessoas que me ensinaram a ser criativo, são como meu avô, que nunca foi chamado de artista e vive criativamente cada dia dos seus 80 anos. 

 

Assim como Dionisio, sou uma pessoa criativa desde que me conheço por gente, talvez por meus pais nunca me bloquearem criativamente na infância ou por sempre ser uma pessoa curiosa, que ia de montar lego sem respeitar as instruções da caixa, até desmontar eletrônicos para descobrir como funcionavam por dentro. Nunca entendi ao certo os fatores que naturalmente me levaram a facilidade criativa. 

 

Em 2016, curioso para saber com mais precisão de onde vinham minhas idéias, descobri que criatividade é um assunto estudável. Me aprofundei,  e após ter traçado paralelos entre criatividade, conexões e experiências pessoais, cheguei a um dos principais pontos de reflexão:

Criatividade não é exclusividade de artista.

 

Todos nós somos seres criativos, e se sentirmos que não somos, talvez só estejamos exercitando pouco o músculo dessa nossa qualidade. Hoje entendo a criatividade como um músculo que precisa ser constantemente exercitado, se não atrofia. Observar, questionar e ser receptivo me ajudam a treina-lo, mas o meu treinamento favorito está em ser uma alma pretensiosa.

 

“ Você nunca conseguirá criar nada de interessante na vida se não acreditar que merece ao menos tentar. ” - Elizabeth Gilbert

 

Aqui, ser uma pessoa pretensiosa é algo diametralmente oposto a presunção ou arrogância. Para mim, pretensão criativa significa simplesmente acreditar que você tem o direito de estar aqui e – pelo mero fato de estar aqui – se expressar e ter uma visão própria, autentica.

 

Hoje uso minha criatividade a favor dos meus propósitos dentro e fora da arte, entendo que quanto mais profundo for em minha pesquisa pessoal sobre criatividade, mais criativo serei. Recebo minhas inspirações com respeito e curiosidade, tendo clareza que frustrações e bloqueios criativos não são interrupções e sim parte do processo. Nutro relacionamentos saudáveis, cercados de inspiração e espaço para ser quem realmente sou, desbravando momentos e lugares imersos em criatividade.

 

É assim que quero passar o resto da minha vida, colaborando da melhor maneira que poder com minha inspiração, eu e minha pretensão criativa, para sempre me colocar na posição de arriscar e experimentar. Se não numa obra de arte, no dia a dia, porque se você leu esse texto até aqui já entendeu: criatividade é a habilidade de solucionar problemas.

Dia 15 - 31/03/2020 | PROBLEMA

Todos os nossos familiares e antepassados passaram por algum tipo de problema, trauma e catástrofe natural. A humanidade sempre se empenhou - consciente ou inconscientemente - a resolver problemas. A busca pela solução de um problema foi talvez o maior motor de evolução da humanidade.

Vivemos em um mundo atual repleto de problemas urgentes, mudanças climáticas, pobreza e fome. São obstáculos que só podemos superar com o uso dos nossos cérebros, e, se a criatividade é a habilidade de solucionar problemas, sinto que a melhor arma para encararmos os problemas da vida é uma mente criativa. Poucas coisas fazem artistas se sentirem verdadeiramente vivos e conectados ao mundo físico quanto o ato de dar vida às nossas ideias, pra mim, uma das forças mais potentes da humanidade. E se todos estivessem pensando como artistas? teríamos um mundo um pouco melhor? Sinto que cada pessoa no mundo é artista por natureza. Elas só precisam acreditar nisso. É o que os artistas fazem.

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