Rafael é um jovem artista que vem ao longo de aproximadamente dez anos empreendendo suas escrituras visuais nos espaços públicos e privados em diversas cidades, assim como no circuito e na cena artística das artes visuais. Borrando territórios, fronteiras e campos disciplinares. Da rua para os meios digitais, dos muros para paredes e fachadas de empresas em diversos países, Rafael foi produzindo uma marca, um símbolo visual desenvolvido pela insistente pesquisa advinda dos desenhos de tipografias que ganhou os espaços mais diversos nesse processo. Tal símbolo misturou-se à identidade visual do artista.

Como nos aponta Carlo Ginzburg no livro Olhos de Madeira, um estilo ganhou tamanha força que correspondia ao próprio artista, como uma assinatura. Um jogo semântico era acionado por meio da repetição e sobreposição de tipografias, de forma que, ao vermos a marca/símbolo, imediatamente a presença do artista se fazia presente, mesmo em sua ausência física. O jogo da representação, tão caro para a história das artes visuais, entre uma gramática visual e seu correspondente se impunha com muita força na trajetória do artista. Para não esquecer, trago aqui um exemplo desse jogo semântico que marcou a história das artes visuais, o célebre jogo realizado por René Magritte: Isto não é um cachimbo.

Como essa narrativa visual emblemática, o símbolo visual criado pelo artista ganhou mundos sobre diversos suportes. Rafael se apresentou ao mundo das artes e soube empreender sua criação, formou o gosto de um público fruidor de artes e adentrou a cena das artes visuais com essa assinatura e/ou estilo. Seguindo a intuição do historiador Antonio Paulo Rezende, que nos pergunta sobre a impossibilidade de permanência de imagens, desenhos e gestos fixos, o artista inquieto produziu deslocamentos, não se deixou aprisionar em uma única referência simbólica. “Quem acredita em desenhos fixos? O mundo se refaz, embora não deixe de manter valores e buscar sentimentos do passado. O amanhã nem sempre é outro dia, pois há cotidianos ferozes que machucam as memórias. O tempo não pode ser definido com escritas marcadas” (Rezende, 2019). Tais palavras nos lembram que o trabalho de Rafael Sanches não ficou parado no tempo, como uma bússola, como a vida que passa.

Nos últimos dois anos, durante esses tempos difíceis que atravessamos em isolamento, o artista empreendeu não somente um projeto ousado de sair do plano bidimensional, mas lançar-se em uma experiência de construção tridimensional e imersão na natureza. Isolamento, solidão, vontade construtiva de capturar o espaço foram as motivações que levaram o artista a construir a série Quem acredita em desenhos fixos?, que a Nós Galeria apresenta nesta exposição intitulada Revolução das Plantas – um chamado que parte do coração do artista por sintetizar a completude e complexidade da natureza em si, com todos os seus elementos vivos, incluindo a humanidade. O que vem do coração basta para justificar tal nomeação.

Na curva da solidão e do desamparo que se firmou na sociedade planetária, Rafael encontrou no refúgio da natureza um lugar para dar vazão à sua saída do bidimensional e seu encontro com o espaço. Sua vontade de expansão e saída para o ambiente o fez percorrer a vertente construtiva da arte brasileira, aprendizado trazido de sua formação em arquitetura inconclusa, e o jogou no planejamento e na construção de uma casa no campo. Rodeado pela natureza hibrida de vegetação e muitas pedras, Rafael construiu uma casa-monumento cuja funcionalidade é total para se habitar, embora os desenhos de dados objetos e equipamentos funcionais da casa carreguem a tradição visual de seus trabalhos bidimensionais.

Ou seja, o sintoma do conflito entre o espaço pictórico e o extra-pictórico, prenunciando a superação do quadro, se impõe nessa obra, casa de campo, nos lembrando do deslocamento e do experimentalismo do artista Hélio Oiticica, com a série intitulada Metaesquema (1958) que marca o início da transição da tela para o espaço ambiental, especialmente com os Bilaterais – chapas monocromáticas pintadas com têmpera ou óleo e suspensas por fios de nylon – e dos Relevos Espaciais, suas primeiras obras tridimensionais.  

Das suas experimentações com o que estamos nomeando de projeto construtivo, iniciado com a casa-monumento, Rafael Sanches levou as experimentações para os jogos de escalas, os exercícios entre a bidimensionalidade e a saída para o espaço, a construção de esculturas e por fim, a produção dessas paisagens visuais sobre papel e objetos escultóricos na série intitulada Que acredita em desenhos fixos? fazendo desaparecer a marca e o estilo que antes o fazia presente em muros e fachadas, nos interiores de casas de colecionadores de suas obras. O artista define-se pelo abstracionismo.

Em suas obras surgem as formas orgânicas e a sugestão de paisagens, tomando partido, nesse momento, por uma gama cromática mais reduzida, porém contrastante, com predominância de três a quatro cores. Em algumas obras faz uso de pinceladas "cheias", explorando o gesto largo do movimento do corpo e a soltura da forma figurativa e tipográfica. Revela afinidade com a obra da artista Tomie Ohtake (1913-2015) na pulsação obtida em suas telas pelo uso da cor e nos refinados jogos de equilíbrio, sobretudo quando avança em sua pesquisa escultórica. Em sentido amplo, abstracionismo refere-se às formas de arte não regidas pela figuração e pela imitação do mundo. Nesta trilha, Rafael Sanches se comunica com a vertente da arte brasileira abstracionista que empreendeu a superação da forma pela ultrapassagem dos conteúdos realistas (e gráficos) dos formalismos geométricos. A mancha, o gesto, a sobreposição cromática parecem anunciar que a obra atual de Sanches faz coro ao abstracionismo informal lírico, uma tradição tão vibrante e perene na arte brasileira.

Nesta exposição estamos diante de aproximadamente quarenta trabalhos, com predominância da pintura sobre papel, reunidas pelas afinidades cromáticas. Grandes desvios de azul e verde em diversas nuances. Aqui e acolá campos cromáticos mais vibrantes invadem o plano com a presença diminuta de espaços  brancos. Assim como, o esmaecimento da marca tipográfica que tanto esteve presente na trajetória do artista, o caminho trilhado por Sanches é  a completa diluição da figura no exercício da abstração. Muito embora entre a realização da abstração Rafael decalca das referências iconográficas da arquitetura as representações de figuras humanas inserindo-as em suas paisagens abstratas, talvez para nos lembrar que somos em um só tempo natureza. Professa o artista, “As plantas são um modelo da modernidade: dos materiais à anatomia energética da resistência às estratégias adaptativas. Elas encontram desde os primórdios as melhores soluções para a maioria dos problemas que afligem a humanidade” (Sanches, 2021, s/p). Então, sejamos plantas!

Entre esses diversos agrupamentos cromáticos sobre papel, o visitante encontra um conjunto de esculturas que trazem em sua tridimensionalidade as referências aos relevos topográficos em corte vistos em plantas e projetos arquitetônicos, na busca de representar o real. Há  objetos escultóricos, chamo-os de relevos, feitos por sobreposição de camadas recortadas de planos visuais avistados nas pinturas sobre pape. Estes relevos comentam as pinturas por meio de seus campos sobrepostos afirmando assim o deslocamento que passa o processo criativo do artista. E por fim, uma adorável escultura que representa a mancha, o gesto, o movimento que percorre a mão do artista em toda a série. Ao meu ver, essa é talvez a síntese que pode significar o caminho profícuo e o interesse que irá percorrer Rafael Sanches nos próximos tempos.

texto curatorial: Joana Dar'c Lima